segunda-feira, março 26

Eu, minha mãe e o câncer.

                                                     

Era um fim de tarde como outro qualquer, eu voltava pra casa do trabalho depois de um dia estafante e desgastante, já haviam se passado alguns dias que não visitava minha mãe como costumava fazer todo final de tarde,por muitos motivos esses finais de tarde juntos estavam ficando cada vez mais raro... Lembro que pela manhã ela me ligou:
____ Oi mão, tudo bem?
____ Tudo!
____ Porque ta ligando?
____ Nada especial, só pra falar com você, nunca mais veio aqui...
____ Tá bom, tava pensando mesmo em passar ai...
____ Certo agente se vê mais tarde.
Desliguei o telefone pensativo, algo na voz dela estava diferente, eu conhecia bem aquela voz, eu conhecia bem o timbre daquela voz... O dia passou em uma correria incrível quase esqueci do telefonema, e da promessa de passar na casa de minha mãe, mas quando já estava quase chegando em casa resolvi voltar e fazer o que tinha prometido... Todo o caminho estava pensativo, algo não esta certo...pensei... lembrei que minha mãe tinha feito uns exames para tira alguns nódulos da bexiga, os médicos disseram que não era nada demais apena pólipos nódulos benignos, e que ela ficaria logo boa. No caminho pensei no tempo em que eu era criança e que vivíamos todos juntos em uma mesma casa, lembro de minha mãe mais jovem, senti uma felicidade aquecendo meu coração só de lembrar aqueles dias. Mas a alegria duraria pouco naquele fim de tarde, iria se esvair com o vento, lembranças perdidas pelo tempo... Quando me aproximei da casa de minha mãe de longe eu a vi sentada na causada, não tinha percebido antes o seus cabelos já bem bracos, mesmo de longe pudi sentir sua feição cansada e triste, senti medo... senti vontade de chorar... senti que deveria ser forte... disse pra mim mesmo não é nada estou criando coisas na minha cabeça... senti que estava mentindo... e queria mesmo me deixar enganar.
Preparei minha melhor cara, só pra ela achar que estava bem, me revesti de uma coragem que realmente não tenho mas que sei como ninguém dissimular.... força pensei... sorria pensei...
____ Boa tarde, (não sabia bem o que dizer e foi o melhor que consegui)
____ Boa tarde meu filho... como foi seu dia... ela sorriu, pensei então não é mesmo nada demais
____ Foi bom mãe, estou um pouco cansado mas estou bem e a senhora? ( tive que perguntar mas fingi não ligar muito).
____ Estou bem. falou ela incerta....
____ E aqueles exames deu tudo certo??
____ Não, o resultado foi justamente o que agente temia que fosse...
____ Como assim? Meu coração agora estava a mil, minhas pernas bambearam olhei bem nos olhos dela e por um segundo todas aquelas lembranças boas viraram um furacão na minha cabeça, todos os momentos com ela, ficaram nítidos demais e aos poucos foram se afastando, sumindo até se apagarem...
____ O medico falou que estou com câncer e é maligno.... Uma pausa... naquele momento todas as forças dela pareciam ter ido embora junto com a primeira lágrima que caiu. Não consegui mais evitar, não sou de chorar, quase nunca choro, sou do tipo que sofre calado e que segura até uma tonelada de sofrimento, mas aquela dor... não eu não pudi segurar... foi pior do que tudo que havera sentido antes.... Baixei a cabeça ela pesava muito, o peso de uma vida que parecia se distanciar. O que pensei naquela hora? nem consigo lembrar direito... mas lembro que senti um medo tão forte que jamais pensei que existisse...
____ Minha vida vai mudar muito a partir de hoje eu nem sei como vai ser... Ela falou agora com um tom de voz baixo de alguém derrotado de alguém que teme o futuro...
        Não consegui responder nada por alguns minutos... e o que poderia dizer pensei.... Mas algo deveria ser dito...
____ A senhora precisa ser forte, todos precisamos, nada está perdido, muita coisa vai mudar é verdade mas o nosso amor e nossa união nunca mudara, vamos nos unir ter fé, e mudar essa situação...
     Ela não parecia convencida, mas deu um sorriso amarelo e respondeu:
____ Claro que vamos, tenho muita fé, são só tempos ruins...
       E eu sorri sem graça.... Passamos alguns minutos calados, trocamos algumas outras palavras e eu fui embora... Mas antes olhei bem pra minha mãe, nunca tinha percebido o quanto ela estava velhinha, e agora parecia mais frágil que nunca.... No caminho de volta chorei pensei na morte, no vazio, na saudade, em tudo que queria dize-la... Tive ódio do câncer... fiz mil questionamentos, vi minha vida no futuro, me senti tão sozinho...
      Os dias se passaram, tivemos outros encontros, mas tenho me afastado não sei por que tenho medo do que vou ouvir eu acho, apesar de que as coisas estão indo bem, uma bateria de exames, dias mais difíceis outros até conseguimos sorri e assim o tempo vai passando e espero no futuro escrever coisas boas no final desse post que vou deixar assim aberto cheio de expectativas e esperanças. Esperando um final feliz...






Continua...

     

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